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AS MUDANÇAS IMPOSTAS PELAS CIRURGIAS GINECOLÓGICAS

RETRATOS DA MUTILAÇÃO, UMA NOVA REALIDADE CORPORAL

“Percebendo um corpo diferente, sentindo-se uma mulher diferente, construindo o significado de mutilação”.

“ A retirada de uma parte do seu corpo, amputar-se perder algo muito importante para caracterização de si.”

As doenças do aparelho genito-urinário e de mama são responsáveis por um elevado número de procedimentos cirúrgicos em todo o mundo.

A histerectomia, por exemplo, é a cirurgia ginecológica mais realizada em países desenvolvidos assim como a mastectomia é amplamente realizada como tratamento entre mulheres, em virtude da neoplasia de mama ser a principal entre mulheres no Brasil e no mundo. As doenças do aparelho genito-urinário e mamárias não só se configuram como um sério problema de saúde pública, mas acometem órgãos que possuem valores simbólicos e relacionados à feminilidade.

Sentir-se diferente, mostra que a mudança no corpo era além de algo mais profundo, fato. Os discursos se misturam, ora se individualizam, devido à dificuldade de em alguns momentos, a mulher dimensionar a influência que uma mudança corporal tem sobre seu self. O self representa um processo social no interior do indivíduo.

Assim, quando a mulher expressa que se sentiu uma “pessoa diferente”, isto é o resultado do processo de interação que ela vivenciou, da autointeração, e da interação com os outros, que possibilita que o self seja continuamente modificado. Essa consciência de si vai mudando ao longo da vida, e no caso dessas mulheres mudou quando elas entraram em contato com uma nova realidade corporal.

Existe duas perdas bem distintas: uma concreta física, e uma abstrata associada à personalidade e identidade. Observa-se que a mulher relaciona a perda com esferas subjetivas, relativas à construção da imagem de si.

Este fenômeno , assumindo a característica de amputação, priva a mulher de um órgão seu, que fica marcado em seu corpo. A marca é a prova física de que a perda aconteceu. Outro sentindo de mutilação é definido como uma mutilação da identidade pessoal feminina, pois a identidade que ela passa a enxergar em si, modifica-se devido à perda de um órgão que é característica de toda mulher.

Nesta lógica, a cirurgia geralmente representa a solução dos problemas que o órgão doente estava trazendo para a vida da mulher, objetivando seu bem-estar físico a partir do desaparecimento dos sintomas. Assim, na maioria das vezes não é considerado relevante o valor atribuído a este órgão, ou crenças e significados construídos por ela, que deveriam ser considerados, visando a manutenção do bem-estar psíquico e social, além do físico.

A identidade feminina tem sua origem nas características femininas(biológicas), que por sua vez construíram uma identidade social para a mulher, com base nas funções desempenhadas por elas.

Ou seja, quando a mulher sente que sua identidade social e funcional foi alterada é que ela construiu um novo contorno para sua própria maneira de se perceber e construir sua identidade pessoal feminina.

Ao relacionar-se com outras pessoas que percebem seu novo corpo como defeituoso, a mulher muita das vezes, passa a acreditar que tem um corpo imperfeito, experimentando sentimentos de inferioridade. Já a sua integração ao meio social, sustentada por estímulos, encorajamento e ajuda, realizada por familiares, amigos ou mesmo grupos de apoio é uma estratégia para que os obstáculos e os limites enfrentados pelo adoecer e pelo convívio com a mutilação sejam minimizados.

E a mulher ao perceber seu corpo como alvo deste simbolismo (defeituoso, deformado, incompleto) absorve estas opiniões e auto interage com essa informação.

O modelo assistencial fragmentado, oferecido atualmente à população, demonstrou não suprir as carências de uma mulher que passa por uma cirurgia ginecológica, pois não a trata como uma mulher inteira, que associa o procedimento cirúrgico com a valorização social do corpo, a feminilidade, a sexualidade, a mutilação e outros aspectos.

Dra. Kátia Godinho

Fisioterapeuta e sexóloga.

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